No dia de minha volta para Recife, fui convidada a visitar com um novo amigo uma pequena comunidade de catadores de lixo que fica em pleno centro de Porto Alegre, cercado por altos e modernos edifícios empresariais. Dionísia e suas companheiras tinham ido há poucos dias ensinar como fazer sopa às mulheres daquela comunidade. Aquela que realizou seu sonho voltou, enfim, para a realidade de antes. Ali mesmo em Porto Alegre, na vila do Bom Jesus, Dionísia era também catadora de lixo. Foram anos de solidão e alcoolismo que antecederam sua ida ao Castelinho. No começo do inverno, os panelões de Dionísia viajam a Porto Alegre, chegam a uma mesma comunidade de catadores.

O nome desse lugar é Vila do Chocolatão. Aqui, as casas são feitas de pedaços de portas e janelas. As pessoas não têm cama, não têm pratos nem talheres. Na primeira esquina na pequena rua da comunidade, há um bar. Uma sinuca velha e algumas pessoas dentro. Na recém construída associação de moradores, Léo, o diretor, diz com o queixo erguido: para falar a verdade, a comunidade é desorganizada. No momento em que chegamos, Léo conversava com um senhor alto, branco, com as pernas cruzadas como um europeu acompanhado de uma jovem de olhos grandes e negros que anotava as perguntas de um e a respostas do outro. Esse senhor era canadense – Dennis Belle Champ. Viajou o mundo como especialista em lixo e esteve por três dias ao lado do Dalai Lama pensando e realizando soluções para pequenos problemas de água e lixo no mosteiro onde vivia Sua Santidade em Daramsala. Agora, casado com uma brasileira, estava ali no Chocolatão para conhecer o tipo de trabalho dos catadores. Estudava a construção de um novo carro de lixo para catadores. Mais leve, mais confortável, com um pequeno motor a hidrogênio que alcança quase 30km por hora. “Porto Alegre trata muito mal os catadores. Na Alemanha, apenas 12% do lixo é recolhido pelos catadores para reaproveitamento e reciclagem. Aqui, 16% de todo o lixo é recolhido por essas pessoas. Elas deviam ser pagas”.

Léo ouvia os números sem se surpreender muito. Depois de elencar todas as muitas tentativas de geração de renda para a comunidade e seus sucessivos fracassos – máquinas de costura, galpão de reciclagem, creche para as crianças, nada funcionava – o diretor da Associação, esse homem grande e forte, diz para o senhor de pernas cruzadas: gostaria muito que o senhor não nos abandonasse. Dennis ri olhando para os lados: mas eu estou de passagem hoje. A necessidade de um é a liberdade do outro. Desse diálogo entre o catador e o especialista em lixo, se pode abrir uma janela para a própria razão do fracasso das revoluções. Marx, seu maior teórico, há muito já havia percebido a incompatibilidade entre a pobreza e a liberdade. A violência da exploração só seria superada a partir da famosa tomada de consciência de classe.