Fecho os olhos e vejo uma bandada de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu numero? O problema intercala o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pôde fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, contudo não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.

Jorge Luis Borges, O fazedor, pag. 15.

1. Quando o rosto se apresenta

A espiritualidade é o exercício do diálogo como ética. Para Levinas, ela acontece quando a responsabilidade por outrem se instala inequivocamente. Enxergar o “rosto de outrem” aponta para uma ética que acontece no acolhimento, na aproximação e no infinito. São esses os conceitos que aproximam a comunicação do entre-nós que ordena a vida social, de uma ética que se contrapõe à racionalidade.

A estrada sem castelos é o trajeto dessa busca.

2. Algumas comunicações

As três experiências em cultura de paz escolhidas têm a seguinte característica comum: a transformação social, não como parte, mas como sendo o próprio caminho espiritual. O bodisatva, o guerreiro espiritual e franciscano (unescamente chamados de facilitadores de cultura de paz) apenas existem na relação como o outro. Essa relação, enxergaremos aqui como ‘comunicação’ com o outro; comunicação a partir da compaixão (ou acolhimento) que é base do fazer dessas organizações e que apontam para novas possibilidades de convivialidade. Mas que comunicação é essa?

Eu descobri o seguinte:

Vão me perguntar sobre o trabalho jornalístico propriamente dito. E todos sabem que jornalismo são os entrevistados. O jeito que você o cria e lhe dá vida.

Pois bem. Vão me perguntar: qual o critério para seleção dos entrevistados?

E a única coisa que posso responder é: Eu intuí que a mente dele era próxima a do buda.

Parei de escrever para pintar minha casa: o amarelo virou azul. Saí pra comemorar com um amigo e um vinho. De noite, o seguinte sonho:

Eu olhava a terra de fora. Era linda. Lembro que pensei nos astronautas que já tinham vivido aquela experiência. Que presente! Logo a nave em que estava (pouco soube dela) se aproximou do planeta e o azul sem forma foi se transformando na paisagem mais exuberante. Tanto que duvidei que aquele planeta fosse o meu (nós ocidentais sofremos de baixíssima auto-estima, já disse o Dalai Lama). Mas não importava. O que via era o Himalaia, duas montanhas enormes, negras e cobertas de neve, que ainda caía. Na proteção da nave que planava cada vez mais perto do chão mas que nunca chegou a tocá-lo, apareceu um homem. Soube dele tanto quanto da nave. Me disse assim: aqueles dois montes lá atrás, você percebe como são parecidos com uma igreja, não é? e agora, agora (e de repente via um outro pico nevado), você vai ver a torre da igreja. Disse isso e desapareceu do sonho. Comecei a me perguntar se seria mesmo o planeta terra aquele. De dentro da nav, procurei ansiosa por sinais e acabei encontrando, numa rocha no meio da neve, inscrições, hieroglifos em círculo. “Aqui há uma civilização que fez do planeta uma igreja”, foi o que pensei e o sonho acabou.

No dia de minha volta para Recife, fui convidada a visitar com um novo amigo uma pequena comunidade de catadores de lixo que fica em pleno centro de Porto Alegre, cercado por altos e modernos edifícios empresariais. Dionísia e suas companheiras tinham ido há poucos dias ensinar como fazer sopa às mulheres daquela comunidade. Aquela que realizou seu sonho voltou, enfim, para a realidade de antes. Ali mesmo em Porto Alegre, na vila do Bom Jesus, Dionísia era também catadora de lixo. Foram anos de solidão e alcoolismo que antecederam sua ida ao Castelinho. No começo do inverno, os panelões de Dionísia viajam a Porto Alegre, chegam a uma mesma comunidade de catadores.

O nome desse lugar é Vila do Chocolatão. Aqui, as casas são feitas de pedaços de portas e janelas. As pessoas não têm cama, não têm pratos nem talheres. Na primeira esquina na pequena rua da comunidade, há um bar. Uma sinuca velha e algumas pessoas dentro. Na recém construída associação de moradores, Léo, o diretor, diz com o queixo erguido: para falar a verdade, a comunidade é desorganizada. No momento em que chegamos, Léo conversava com um senhor alto, branco, com as pernas cruzadas como um europeu acompanhado de uma jovem de olhos grandes e negros que anotava as perguntas de um e a respostas do outro. Esse senhor era canadense – Dennis Belle Champ. Viajou o mundo como especialista em lixo e esteve por três dias ao lado do Dalai Lama pensando e realizando soluções para pequenos problemas de água e lixo no mosteiro onde vivia Sua Santidade em Daramsala. Agora, casado com uma brasileira, estava ali no Chocolatão para conhecer o tipo de trabalho dos catadores. Estudava a construção de um novo carro de lixo para catadores. Mais leve, mais confortável, com um pequeno motor a hidrogênio que alcança quase 30km por hora. “Porto Alegre trata muito mal os catadores. Na Alemanha, apenas 12% do lixo é recolhido pelos catadores para reaproveitamento e reciclagem. Aqui, 16% de todo o lixo é recolhido por essas pessoas. Elas deviam ser pagas”.

Léo ouvia os números sem se surpreender muito. Depois de elencar todas as muitas tentativas de geração de renda para a comunidade e seus sucessivos fracassos – máquinas de costura, galpão de reciclagem, creche para as crianças, nada funcionava – o diretor da Associação, esse homem grande e forte, diz para o senhor de pernas cruzadas: gostaria muito que o senhor não nos abandonasse. Dennis ri olhando para os lados: mas eu estou de passagem hoje. A necessidade de um é a liberdade do outro. Desse diálogo entre o catador e o especialista em lixo, se pode abrir uma janela para a própria razão do fracasso das revoluções. Marx, seu maior teórico, há muito já havia percebido a incompatibilidade entre a pobreza e a liberdade. A violência da exploração só seria superada a partir da famosa tomada de consciência de classe.

As fotos do Caminho do Meio foram reveladas. A dona da loja de fotografia, uma paranaense, olhava para as crianças do Castelinho e comentava que lá em Maringá não tinha favela. Disse que ficou chocada quando veio para Recife, com todas essas favelas. Por que o governo não providenciava moradia adequada para essas pessoas? A distância entre ricos e pobres é mesmo muito grande por aqui, dizia.

Eu olhava as mesmas fotos. Tatá com as crianças, Dionísia rindo, Eduardo aquele fofo rindo bem muito pra câmera, os gêmeos em várias poses. Tinha uma saudade e uma alegria tão grande, que quando eu falei que eram para uma reportagem ficou estranho. Então, ou eu não estava fazendo uma reportagem, ou a gente aprende que não pode ter saudade dos entrevistados.

Minhas descobertas são cada vez mais banais.

A caminho do Cebb

Lembro que pensei nos cachorros. O lama falou em um dos encontros aqui no Recife que na Estrada do Caminho do Meio é muito comum serem abandonados cachorros. Os filhotes crescem, envelhecem, adoecem e as pessoas se cansam deles e os deixam por lá. A estrada Caminho do Meio é o último lar dos cachorros velhos. Os carros passam, os cachorros morrem.

Nesse momento não conhecia Vankinka, Fusca, Telma e Milton Leite – habitantes do feliz reino canino dos sobreviventes. Nem Zezinho, o lombriguento que chegou no mesmo dia que eu, e todos os 8 filhotes e uma mãe que foram deixados às portas do Cebb no período que eu estava lá. Aquelas pessoas que não tem coragem suficiente para abandonar seus animais na beira da rodovia para esperarem a morte, deixam sorrateiramente seus animais na entrada do Cebb esperando que outros sejam capazes de lhes oferecer um melhor destino.

O endereço do Cebb é Estrada Caminho do Meio, número 2600, Viamão.

Dia 07 de maio:

Encontrei Camitinha apenas dentro do avião (nesse tempo ela era só Carmita). Saímos juntinhas de lá para encontrar um praticante, que gosta de ser chamado de Pema. Um senhor alto, gordinho, com barba branca e fofa escondendo olhinhos azuis. Uma reverência e um sorriso. Estava com a mãezinha, como chamava. Uma senhora muito bonita que falava polonês e hebraico, mas cuja raiz mais forte, se via no seu apetite pela carne, era mesmo a brasileira. Pois sim. Fomos direto a uma churrascaria. Carmita e Pema comentavam a vinda das relíquias e o maravilhoso encontro com tão grandes mestres. Que maravilha. E passavam as carnes, os molhos, as sobremesas. Até que chegou o café e tudo acabou num passeio por Porto Alegre. Vimos do carro o lugar onde Pema teve durante muitos anos a Formiguinha Gulosa. Numa rua larga e calma da cidade, a confeitaria que era a menina dos olhos da família e onde Pema conheceu sua última esposa, se transformou numa lavanderia chinesa. Ele olhou com saudade. Nem os budistas escapam desse puxa-encolhe que é olhar o passado.

Mas se a vida é um aprendizado de impermanência, acho que estávamos todos muito bem no carro. Nos últimos dias, todo o Rio Grande tinha, segundo as manchetes assustadas do Jornal Nacional, sofrido com o ciclone subtropical. Chuvas fortes, ventos violentos, tormentas deixaram dezenas de milhares de pessoas desabrigadas, as lavouras destruídas, os serviços públicos de eletricidade abalados. De fato, quando chegamos no Caminho do Meio, descobrimos que eles tinham passado os últimos três dias sem energia elétrica. Mas naquele momento, o carro passava pelas ruas cheias de árvores e de sol de Porto Alegre. No banco de trás Carmita e eu, nordestinas encantadas com o clima de agasalho da cidade, pensávamos nos dias que viriam. Como motorista e passageiro, mãe e filho pensavam nos dias que já tinham ido, talvez. A Formiguinha Gulosa, a loja de roupas do centro, o encontro com grandes mestres. Ninguém se lembrou da tormenta.

Saí de Recife no dia 07 de maio. O Rio Grande do Sul tinha sofrido com as maiores chuvas dos últimos anos naquela semana, mas o céu de Porto Alegre quase não tinha nuvens na hora do pouso. Um sol forte de meio dia iluminava tudo. Eu, ao contrário, de vez em quando assombrinhava e acreditava nos meus fantasmas. Que pretensiosa essa minha busca! Tentar responder em 17 dias a pergunta que desde que o mundo é mundo se faz: como trabalhar para viver em paz com você mesmo e com o mundo? E não era uma resposta teórica a que eu estava buscando. Parecia que ia afirmar, com todas as letras que um jornalista pode usar, que sim! os budistas do Instituto Caminho do Meio no Rio Grande do Sul não apenas vivem em paz com eles mesmos como estabelecem relações positivas com os outros, com as instituições e com a biosfera! Cabia a mim provar com fotos e textos que um outro mundo é possível, basta acreditar no Buda. E tudo que eu não queria era isso. Se eu jogasse tarô naquele momento, na posição reservada para esperanças e temores, certamente a roda da vida ia aparecer: o destino. Não tinha absolutamente idéia do que ia acontecer.

No pensamento budista, no entanto, o que se entende por destino é visto simplesmente como os carmas atuando. Velhas marcas que fazem exatamente o que essa viagem fez comigo: ir bem longe pra chegar num lugar já conhecido.

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